segunda-feira, 21 de junho de 2010

Vi o mar, já podia morrer.




Desde que me entendo por gente e ouvir falar do mar, desejei ver o mar! Nas andanças dos meus pensamentos se entrecruzavam a realidade das imagens dos retratos do mar que eu ia conhecendo com as imagens da minha imaginação. Quem nasce e cresce no sertão, seja ele qual for, de onde ele for, padece desse desejo, desse pensamento, dessa vontade que não passa nunca, parece coceira de frieira, em que o cabra coça até dormindo os entremeios do dedos do pé, êita coceira danada de boa!
Várias foram as tentativas frustradas de ver o mar, até o tio que por lá morava, nunca se lembrou de convidar quem por aqui ficou, era de dar raiva...mas deixa pra lá!
Até que um dia, numa comitiva de estudantes que foram congressar lá nas bandas da capital, o tema do congresso? sei lá, surgiu a oportunidade de conhecer o mar...

Seis horas no ônibus, um tal de monobloco fretado, fedia que nem pano de proteger sofá! A roedeira da ansiedade, o balacobaco do motor, a sonolência do motorista, logo expulsa por um café no boteco do peritoró, e tome chão, tome placa, tome buraco, tome palmeira de babaçu...já amanhecia o dia quando alguém gritou: São Luis, terra dos ribamar, única capital que não nasceu lusitana à vista!
Antes de aportar nos alojamentos do tal congresso, rumamos para o mar...pura pressão dos estudantes do sertão, “vamos logo para o mar, vai que depois o tempo se escafede e não dá tempo ver o mar”.

Áh! se eu soubesse pintar, desenhar...faria a imagem da minha memória pipocar numa parede, num papel de fotografia..seria mais ou menos assim: A ladeira fez as vezes de parede, de venda, de tapa-olho enquanto teve força pra agüentar os cavalos do motor do velho ônibus...até que mais que de repente, se abriu a cortina do céu e cá em baixo se misturou nas minhas vistas a imagem mais bonita que meus olhos jamais viram...era o mar, faceiro, derrubava suas ondas como se fosse a beirada de um vestido de cor azulado com um babado esbranquiçado.  Na caixa do meu peito, arrebentou uma orquestra, um aboio, um fado, até hoje não sei...nunca mais senti aquela sinfonia. Olhei procurando o fim do mar, ou talvez seu começo não sei...só sei que naquele dia pensei...hoje eu já podia morrer, vi o mar.

21-06-2010
PCBM


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