quarta-feira, 23 de junho de 2010

Carradas de Melancia!

Carradas de Melancia!



Dura mais agradável tarefa, era, ajudar descarregar as melancias da velha rural cor de abórbora e branca, aliás, foi à bordo da mesma que me sentir motorista pela primeira vez! (depois conto essa história). Melancias que vinham do Sítio do Meio ou da Boa Hora. Melancias espalhadas no terraço, naquele tempo, as compridas eram as mais abundantes, lindas, rasgadas no peito por uma boa facada, expunham sua vermelhidão, seu cheiro, suas sementes pretinhas, jorravam seu suco no canto das nossas bocas, eram tantas e tão robustas que só comíamos o vigor de suas carnes mais gordas e encarnadas! Ligeiro, cortávamos outra e outra...não lembro de ter ouvido uma queixa do Tio Pedim com tanta sobra de carnes de melancia desperdiçadas, só lembro de suas satisfação através de sorrisos, em ver seus filhos e sobrinhos com o buxo pra estourar de tanta carne de melancia! Olhava e saía arrastando sua velha sandália de couro, voltava pra quitanda, ia atender a freguesia! Vem desse tempo minha paixão por melancia, pena que hoje, as redondas são as mais comuns, ouvir dizer que tem até melancia quadrada lá pras bandas do Goiás!

terça-feira, 22 de junho de 2010

Lampejos de memória....


Lampejos de memória....




Segundo consta no assento de cartório e lembranças da mamãe, nasci na rua do porto grande em Caxias!  Tempos mais remotos que perpassam meu consciente dão conta de Codó, cidade encravada no sertão maranhense, não sei precisar quantos anos por ali moramos...de Codó rememoro fazendo força: Da casa de palha no puraqué, bairro distante do centro da cidade, das longas caminhadas em avenida asfaltada rumo à igreja presbiteriana e rumo à casa de minha vó!  Da igreja lembro de nomes e pessoas como Nati, irmã Dulce...do Colégio João Ribeiro, escola primeira dos meus irmãos Karla e Carlos, em Codó fui alfabetizado por uma professora maravilhosa, de quem nem lembro o nome, mas de quem jamais esqueci a  afeição! Fomos embora para Caxias, por várias férias voltei ao Codó, ainda hoje, quando vou ao Maranhão, se tenho tempo “mato” a vontade de por ali passar, tenho muitos parentes!! De um salto, minha memória me transporta para Caxias, princesa do sertão, voltava para o útero citadino...segundo minha mãe, para Caxias, voltamos à força, aproveitando viagem de meu pai para o Rio de Janeiro, ela conta que jogou os parcos móveis em cima de um trem e se mandou de Codó, “Ali só conhecemos pobreza e atraso...Graças  a Deus, fomos embora...”
Em Caxias, fomos morar na rua do cangalheiro, bairro próximo ao centro, igreja nova, amigos novos, dessa rua me lembro bem do sr. Massa Bruta, negro, alto, forte, nunca esqueci o tamanho de suas mãos...sua casa era vizinha à nossa, tinha uma televisão “preto e branco”, ali assistir pela primeira vez o Sítio do pica-pau-amarelo, muitos episódios...ali minha mente se interessou pelas fantásticas viagens da imaginação, fantasias de menino!!!! Aliás, minha mãe conta que Massa Bruta, tinha sido segurança pessoal do ex-governador do Maranhão, Eugênio Barros, dizem que num levante golpista que no Palácio dos Leões aconteceu, Massa Bruta matou gente! “”
Aqui vale contar rapidamente um episódio que me colocou pela primeira vez de cara com a morte... Era um domingo, tinha cerca de 07 anos, chegamos da igreja, almoçamos, meus pais foram deitar um pouco, eu e meu irmãos velho, o Carlim, decidimos ir brincar na beira do rio, ali encontramos uma canoa amarrada à uma árvore, corrente comprida, cada um tinha sua vez de subir na canoa, enquanto o outro empurrava a mesma rumo ao rio, até que a corrente esticava e quem estava na margem puxava a corrente, numa dessas vezes, enquanto eu estava sentado na canoa, meu irmão empurrou a canoa e lá se foi, a corrente partiu, quando percebi, me desesperei e ainda pensei em pular, mas fiquei com medo, o rio estava cheio, correnteza forte, sentei e meu irmão gritou: Não pula, vou buscar ajuda. Pois bem, a ajuda que ele buscou foi entrar em casa “voando” e gritando no quarto dos meus pais...o Paulo desceu no rio, o Paulo desceu no rio!!! Minha mãe conta que desesperada, correu para a beira do rio e só pensava em pular na água para ver se me achava no fundo do rio!!! Quando lá chegou, percebeu que o pior já tinha passado, um pescador, me viu descendo sozinho no meio do rio, me acompanhou com sua canoa e me resgatou seguro para a margem...naquele domingo, não sei se apanhei, mas registrei como sendo o maior medo que já passei na minha infância!

PCBM
22/06/2010

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Vi o mar, já podia morrer.




Desde que me entendo por gente e ouvir falar do mar, desejei ver o mar! Nas andanças dos meus pensamentos se entrecruzavam a realidade das imagens dos retratos do mar que eu ia conhecendo com as imagens da minha imaginação. Quem nasce e cresce no sertão, seja ele qual for, de onde ele for, padece desse desejo, desse pensamento, dessa vontade que não passa nunca, parece coceira de frieira, em que o cabra coça até dormindo os entremeios do dedos do pé, êita coceira danada de boa!
Várias foram as tentativas frustradas de ver o mar, até o tio que por lá morava, nunca se lembrou de convidar quem por aqui ficou, era de dar raiva...mas deixa pra lá!
Até que um dia, numa comitiva de estudantes que foram congressar lá nas bandas da capital, o tema do congresso? sei lá, surgiu a oportunidade de conhecer o mar...

Seis horas no ônibus, um tal de monobloco fretado, fedia que nem pano de proteger sofá! A roedeira da ansiedade, o balacobaco do motor, a sonolência do motorista, logo expulsa por um café no boteco do peritoró, e tome chão, tome placa, tome buraco, tome palmeira de babaçu...já amanhecia o dia quando alguém gritou: São Luis, terra dos ribamar, única capital que não nasceu lusitana à vista!
Antes de aportar nos alojamentos do tal congresso, rumamos para o mar...pura pressão dos estudantes do sertão, “vamos logo para o mar, vai que depois o tempo se escafede e não dá tempo ver o mar”.

Áh! se eu soubesse pintar, desenhar...faria a imagem da minha memória pipocar numa parede, num papel de fotografia..seria mais ou menos assim: A ladeira fez as vezes de parede, de venda, de tapa-olho enquanto teve força pra agüentar os cavalos do motor do velho ônibus...até que mais que de repente, se abriu a cortina do céu e cá em baixo se misturou nas minhas vistas a imagem mais bonita que meus olhos jamais viram...era o mar, faceiro, derrubava suas ondas como se fosse a beirada de um vestido de cor azulado com um babado esbranquiçado.  Na caixa do meu peito, arrebentou uma orquestra, um aboio, um fado, até hoje não sei...nunca mais senti aquela sinfonia. Olhei procurando o fim do mar, ou talvez seu começo não sei...só sei que naquele dia pensei...hoje eu já podia morrer, vi o mar.

21-06-2010
PCBM